sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Crônicas do apocalipse

Os profetas do apocalipse estão em polvorosa. Há versões do fim do mundo para todos os gostos: tempestade solar, choque de asteróide, renúncia de papa...

Talvez uma delas, bem ao gosto brasileiro, preveja uma reedição de sodoma-e-gamorra pós-carnaval, algo como uma chuva de enxofre e fogo para expurgar o pecado acumulado no período momesco.

No entanto, nenhuma maldição consegue ser mais assustadora do que voltar ao trabalho depois da quarta-feira de cinzas. Dai não ser exagero afirmar que para muitos o fim do mundo se torna quase um consolo. Muito melhor que encarar a fatura do cartão de credito ou explicar para a(o) esposa(o)/namorada(o) o inexplicável.

Depois que o asteróide e o carnaval passarem e o sol sossegar o facho, não vai demorar muito para que surja uma nova edição do seriado fim-do-mundo. Basta que alguém com alguma culpa no juízo encontre uma bíblia ao alcance da mão e assista com regularidade aos documentários do discovery channel. No mais, é só fazer bando na internet.

E eu, que já passei pelo Skylab, pelo Halley e pelo calendário maia, vou fazendo listinhas inúteis. Envelheço e fico mais instruído quando se trata de fim do mundo.

Texto dedicado ao Miguel Ángelo

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Notícias psicodélicas

Nada mais surreal que a página do UOL durante o carnaval.

Aí vai uma pequena coletânea:

- "Jovem que pôs a leilão a virgindade na web desfila pela Mangueira"

- "Angela bismark anuncia hímen descartável por R$30,00"

- "Claudia Leitte mistura Gangnam Style com Eguinha Pocotó"

- "Ivete faz versão "Embromation" de Gangnan Style"

- "Carro alegórico de escola de samba pega fogo em Santos; ao menos quatro pessoas morreram"

- "Luana Piovani discute com marido por comentário sobre Juliana Paes"

Um estrangeiro de passagem no Brasil poderia muito bem pensar que o redator do site tomou ácido com Guaraná Jesus e Cachaça desdobrada.

Conclusão: no carnaval, pode tudo. Até mesmo se fantasiar de Mega Foxx.

(a parte mais difícil da estória está em saber quem é Mega Foxx).

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Brasil, o país das lentilhas

Se, brasileiros, chamamos o país vizinho com o nome da ave da mesa natal e das piadas de duplo sentido (conforme o exemplo do finado humorista Costinha), nada mais instrutivo do que pensar que a mesma relação pode ser constatada com os falantes da língua inglesa quando se referem à Turquia (pelo menos no que diz respeito à ave).

Em “Istambul”, livro do escritor turco Orhan Pamuk, encontramos um interessante exemplo sobre o Brasil, de outra perspectiva.

Em meio às narrativas de suas memórias de infância, Pamuk escreve: “Deve haver alguma relação entre o Brasil e as lentilhas – não só porque Brasil se diz Brezilya em turco e a palavra lentilha é bezelye – mas também porque a bandeira do Brasil tem, aparentemente, uma enorme lentilha no meio”. Daí a conclusão: “depois que a conexão se estabelece, nada consegue desfazê-la”.

Acredito que Pamuk tem razão. São misteriosas e inusitadas - mas também duradouras - as conexões que determinam o uso que fazemos das palavras e modulam nossa apreensão da realidade.

Não sou conhecedor de lentilhas e sempre tive para mim que fossem verdes como são as ervilhas. De qualquer forma, vou dormir hoje com a imagem de uma lentilha azul, positivista e carnavalesca. Uma lentilha que carrega a faixa de rei Momo com os dizeres “ordem e progresso”.