domingo, 23 de dezembro de 2012

... e a Clarice do Sol ofuscou o fim do mundo.


Nada como passar o fim do mundo no berçario. O choro de uma criança ao nascer é a melhor demonstração da insistência da vida.

Diante do inexplicável demostrado, estou convencido que as palavras são sempre toscas para a grandiosidade efêmera de algumas poucas, únicas e felizes coincidências que marcam a vida. No entanto, por mais imprecisas, as palavras atualizam e perpetuam o passado no presente. Daí o instante vira eternidade.

Primeiro Pedro, depois Clarice. Em comum, a solidão feliz da madrugada do berçario e a vida que continua.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Desacabando o mundo

Poesia? Piada? Os dois juntos? Que ironia mais bem sucedida do que nascer no dia do fim do mundo? Qual ato de resistência mais oportuno?

A mídia fala de um mundo que deveria se escafeder e aí vem essa criaturazinha que resolve nascer no tal dia. Deveriam ensinar para ela os cálculos dos numerólogos maias.

Uma vida começa e o mundo desacaba. Seja bem-vinda, Clarice!!!

obs: Por mais suspeito que seja, eu não tive nenhuma participação na escolha da data.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sobrederminação

A lógica que se pensa linear é torta. Por isso mesmo, traduções e discorreções eletrônicas estão fadadas ao fracasso. Acredito no equívoco pois ele é o sucesso do fracasso da correção. No equívoco estamos no campo do humano. Aí vai um exemplo.

Ao usar o Amarok (um programa de música do Linux),coloquei pra tocar a minha já surrada coletânia de brega. Eis que, para minha surpresa, apareceu na tela o mapa de uma cidade da Líbia.

Demorei a entender o que o computador queria dizer, se é que havia algo a ser entendido. Afinal, trilhar em 5 segundos o caminho que leva de Genival Santos a Moammar Kadaffi não é para qualquer bicho que anda com dois pés e fala.

Passado o atordoamento, descobri que Brega é o nome de uma cidade da líbia. A manchete de um jornal português me fez pensar que há um curto passo do trágico para o humor (de novo, nada mais humano).

Meu sincero pesar aos familiares dos mortos pela defesa do Brega, mas eu fico com a piada.

Governo e rebeldes continuam a lutar por Brega: http://www.publico.pt/Mundo/libia-governo-e-rebeldes-continuam-a-lutar-por-brega-1484843

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Aristófanes com Fabio Junior e Genival Santos

Um dia, em um cartel, reinterpretei o mito de Aristófanes ("O Banquete" de Platão) numa parodia da música do Fábio Júnior. Esta, não por acaso, funcionou muito bem na abertura de uma novela das seis: "almas gêmeas... as metades da laranja, dois amantes, dois irmãos". A paródia consistiu em substituir irmãos por limões.

Algum tempo depois, cai na tentação - que reconheço desnecessária e inútil - de explicar a piada. Como tenho a sensação de desaparecer quando produzo uma piada genuína, algo que me ultrapassa, tomo o texto como proferido por outra pessoa.

A opção pela sequência das frutas cítricas para substituir "irmãos" acrescenta um azedinho na doçura excessiva e artificial da versão original. Faz oposição à ilusão incestuosa da completude pelo amor.

O que interessa no comentário dessa piada requentada é pensar a transferência no cotidiano. Freud apostou que há uma verdade pulsional inerente aos enganos do amor e que todo amor é transferencial. Para Lacan, a trasferência concerne ao encontro faltoso com o real.

É por isso que considero o brega do Genival Santos - em seu tom de farsa, passionalidade desmedida e nostalgia - mais autêntico do que o romantismo meloso do Fábio Junior. Genival canta a angústia que assombra a vida amorosa do neurótico, a angústia de ser reduzido a um objeto, a um resto: "Eu não sou brinquedo, eu não sou brinquedo não, eu não sou brinquedo para você brincar comigo".


Sobre o mito de Aristófanes: http://paodelo.wordpress.com/2009/03/07/o-amor-segundo-aristofanes-in-o-banquete-de-platao/

Fábio Junior - Almas gêmeas: http://www.youtube.com/watch?v=S5SAZGSL6LI

Genival Santos - Eu não sou brinquedo: http://www.youtube.com/watch?v=3HxMNc30i1Y

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Condensação

Pedro (com dois anos e meio) me ensinando sobre as ferramentas do trabalho onírico:

- "Casas Bahia do Tubarão": comercial das "casas bahia" + brinquedo "Baía do tubarão", do hotwheels;
 

- "Parque do Cócoricó": parque do Cocó (Fortaleza/CE) + cócoricó (programa infantil)
 

- "Lojas americanas da América do sul": comercial das Lojas americanas + refrão da música do Solano ("ela é americana da América do sul")

Solano - Ela é americana: https://www.youtube.com/watch?v=fJ2Z8-bNPgQ

Fortaleza, 18/09/2010

À memória de Márquez

Gosto de receber postagens no Facebook com frases dos meus autores preferidos. Mesmo diante do risco da autoria duvidosa, essas pequenas doses de literatura em pílula me fazem pensar, pesquisar, ir aos livros e escrever. Daí produzo outras postagens. Uma delas, sobre Gabriel Garcia Márquez, eu transcrevo aqui.

"La muerte no llega con la vejez, sino con el olvido."

Lembro de Úrsula, a matriarca dos Buendia que, na velhice, falava as verdades da família no labirinto de suas recordações erráticas e evanescentes. Ela incorpora e transmuta algumas falas traços de Mina - Tranquilina -, avó materna de Márquez. O escritor relata que ela foi uma das principais influências de seu estilo. Márquez soube escutá-la e, com certeza, continua a transmitir o legado de Mina e de Úrsula.


"A avó Tranquilina Iguarán havia morrido dois meses antes, cega e demente, e na lucidez da agonia continuou discursando e divulgando com sua voz radiante e sua dicção perfeita os segredos da família" (Viver para contar, p. 337).

sábado, 3 de março de 2012

Futebol

Nada mais imbecil que a troca de Farpas entre Pelé e Maradona, cada qual reivindicando para si o título de melhor do mundo.

Pra mim, a disputa tinha está entre Garrincha e Puskas. No mais, é mandar esses dois boçais (Pelé e Maradona) pra lá, do lado de lá, da barra do ceará. Pra tonga da milonga do cabureté.

Homenagem ao Armando Nogueira.

Easy rider a pé


Um colega postou no facebook uma música que eu gosto muito. Jethro Tull: “too old to rock'n'roll, too young to die”.
Fiquei pensando: as propagandas de carro de hoje são todas embaladas pelo rock'n'roll. Bandas como ACDC, Queen, Kinks e Rolling Stones são cada vez mais comum nos comerciais. É bom lembrar que até pouco tempo nesses comerciais predominavam outros estilos de música para transmitir a idéia de requinte, refino e pertecimento a uma elite.

Tudo leva a crer que a rebeldia está mais cordata. Virou garoto propaganda de uma geração que está tentando aprender a envelhecer e a se desvincular do culto à juventude, tão fortemente arraigado no Rock.

Encontramos a expressão dessa paixão do rock pela juventude no mote: "Living fast, die young" (Viva rápido, morra jovem). Difícil é aprender a usufruir vagarosamente das coisas da vida e morrer velho.
Fica a pergunta. Existe "Born to be Wild" (Musica do Steppenwolf, tema do filme "Easy Rider") para quem anda a pé?

Malafaias


Malafaias é o humorista do bizarro. A mistura de citações sinistras da bíblia com comentários de final de feira cria uma salada indigesta. O humor funciona para quem pode entrar no restaurante, ler o cardápio e ir embora.

O humor nonsense e involuntário do Malafaias serve de advertência. Existe algo de pedagógico na fala dele. Ela nos alerta dos descaminhos e combinações malucas que o ser humano pode criar para anular o que é diferente.

O nazismo é o exemplo mais clássico disso. Em sua essência, o nazismo é repetido à exaustão. Não nas mesmas proporções. (Ainda bem, há esperanças!!!)

Voltando ao malafaias: encontramos nele um exímio orador que combina afetos para influenciar opiniões.

Daí ele contar anedotas e causos para ilustrar a frase de um profeta hebreu obscuro de tempos imemoriais. Por isso ele pula e esperneia para demonstrar a eficiência de seu desprezo e garantir a sua contaminação. Em seguida, ajeita o paletó, respira fundo e retoma o discurso pausado da oratória tradicional.

Assistimos ele transitar com maestria do sussurro à vociferação, da coloquialidade ao paternalismo legislador.

O auge de seus programas é a passagem do tom admoestatório e superegóico do deus do velho testamento para o paternalismo amoroso e delicado do melhor cristão franciscano.

Na hora de pedir dinheiro.