terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Aristófanes com Fabio Junior e Genival Santos

Um dia, em um cartel, reinterpretei o mito de Aristófanes ("O Banquete" de Platão) numa parodia da música do Fábio Júnior. Esta, não por acaso, funcionou muito bem na abertura de uma novela das seis: "almas gêmeas... as metades da laranja, dois amantes, dois irmãos". A paródia consistiu em substituir irmãos por limões.

Algum tempo depois, cai na tentação - que reconheço desnecessária e inútil - de explicar a piada. Como tenho a sensação de desaparecer quando produzo uma piada genuína, algo que me ultrapassa, tomo o texto como proferido por outra pessoa.

A opção pela sequência das frutas cítricas para substituir "irmãos" acrescenta um azedinho na doçura excessiva e artificial da versão original. Faz oposição à ilusão incestuosa da completude pelo amor.

O que interessa no comentário dessa piada requentada é pensar a transferência no cotidiano. Freud apostou que há uma verdade pulsional inerente aos enganos do amor e que todo amor é transferencial. Para Lacan, a trasferência concerne ao encontro faltoso com o real.

É por isso que considero o brega do Genival Santos - em seu tom de farsa, passionalidade desmedida e nostalgia - mais autêntico do que o romantismo meloso do Fábio Junior. Genival canta a angústia que assombra a vida amorosa do neurótico, a angústia de ser reduzido a um objeto, a um resto: "Eu não sou brinquedo, eu não sou brinquedo não, eu não sou brinquedo para você brincar comigo".


Sobre o mito de Aristófanes: http://paodelo.wordpress.com/2009/03/07/o-amor-segundo-aristofanes-in-o-banquete-de-platao/

Fábio Junior - Almas gêmeas: http://www.youtube.com/watch?v=S5SAZGSL6LI

Genival Santos - Eu não sou brinquedo: http://www.youtube.com/watch?v=3HxMNc30i1Y

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